Tenho observado que a eleição de 2026 já entrou em uma fase decisiva, embora muita gente ainda trate a campanha como algo distante. Esse é um erro comum na comunicação política. A propaganda eleitoral só começa oficialmente em 16 de agosto, mas a disputa real por imagem pública, narrativa política, alianças, financiamento e percepção social já está acontecendo.
O calendário do Tribunal Superior Eleitoral ajuda a enxergar esse movimento com clareza. Em 15 de maio, pré-candidaturas puderam iniciar a arrecadação prévia por financiamento coletivo, desde que sem pedido de voto. Em 16 de junho, o TSE deve divulgar o montante do Fundo Especial de Financiamento de Campanha. A partir de 30 de junho, emissoras de rádio e televisão passam a ter vedações envolvendo programas apresentados ou comentados por pré-candidatos. Depois vêm as convenções partidárias, entre 20 de julho e 5 de agosto, o prazo de registro até 15 de agosto e, no dia seguinte, a largada formal da propaganda eleitoral.
Quando analiso campanhas eleitorais, costumo separar duas coisas que muitas vezes são confundidas: o prazo jurídico e o tempo político. O prazo jurídico define o que pode ou não pode ser feito em cada etapa. O tempo político define quando o eleitor começa a formar impressão, quando os aliados se movem, quando a imprensa enquadra uma candidatura e quando uma liderança passa a ser percebida como viável ou improvisada.
A campanha começa antes do pedido de voto, porque a percepção pública não espera o calendário oficial.
O erro de esperar agosto para construir narrativa
Existe uma ilusão perigosa em muitas campanhas: acreditar que a narrativa só precisa estar pronta quando a propaganda for liberada. Na prática, agosto costuma apenas revelar a qualidade da preparação feita antes. Quem chega ao início da propaganda sem posicionamento claro, sem diagnóstico do eleitorado, sem linguagem própria e sem uma tese sobre o país ou sobre o território entra atrasado.
Marketing político não é apenas produzir peças bonitas ou ocupar redes sociais. É organizar uma leitura estratégica da realidade. Em uma eleição geral, com disputa para presidente, governos estaduais, Senado, Câmara dos Deputados e assembleias legislativas, o eleitor recebe estímulos contraditórios o tempo inteiro. Ele não acompanha a política como os atores políticos imaginam. Ele percebe sinais, testa coerência, compara postura, guarda impressões e reage a conflitos que muitas vezes escapam do controle das campanhas.
Por isso, a pré-campanha não deve ser entendida como um período de ansiedade comunicacional, no qual todo mundo fala o máximo possível para parecer competitivo. Ela deve ser tratada como a fase de definição da inteligência estratégica. É o momento de responder perguntas simples e difíceis: qual problema público essa liderança representa? Que tipo de futuro ela consegue tornar crível? Qual é o contraste legítimo com os adversários? Qual imagem pública precisa ser consolidada antes que a disputa fique saturada?
A inteligência artificial mudou o custo do erro
A eleição de 2026 também será marcada por um ambiente digital mais sensível. O TSE regulamentou o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral, inclusive exigindo identificação explícita, destacada e acessível quando houver conteúdo sintético multimídia criado ou alterado de forma significativa por IA. Também há restrições específicas para novos conteúdos sintéticos no período de 72 horas antes da votação e 24 horas depois.
Isso não significa que a tecnologia deva ser demonizada. Pelo contrário, ferramentas digitais podem ajudar campanhas a organizar dados, testar mensagens, melhorar produção de conteúdo e responder com mais velocidade. O problema aparece quando a campanha confunde eficiência técnica com irresponsabilidade estratégica. Em comunicação política, velocidade sem critério aumenta o risco de erro. E, em ambiente polarizado, um erro visual, uma peça ambígua ou uma manipulação mal explicada pode corroer confiança rapidamente.
Tenho insistido que a disputa de 2026 será menos tolerante com improviso digital. O eleitor já convive com excesso de conteúdo, suspeita de manipulação, fadiga informacional e descrença institucional. Nesse contexto, autenticidade não é um adereço. É uma condição de sobrevivência narrativa.
O que a política brasileira deveria aprender agora
A aplicação ao cenário brasileiro é direta. Lideranças que querem chegar competitivas a outubro precisam usar junho e julho para construir densidade, não apenas visibilidade. Isso envolve ouvir bases reais, mapear dores concretas, ajustar discurso, preparar porta-vozes, organizar presença territorial e definir uma linha de comunicação que aguente pressão.
Uma candidatura pode até crescer com um fato inesperado, mas dificilmente sustenta crescimento sem estrutura narrativa. O eleitor precisa entender, em poucos segundos, quem é aquela liderança, por que ela está disputando, que problema ela pretende enfrentar e por que sua presença faz diferença. Quando essa resposta não existe, a campanha vira sequência de eventos, cortes de vídeo e frases de ocasião.
O calendário eleitoral é uma régua legal, mas também é um alerta estratégico. Quem olha apenas para a data de 16 de agosto perde o que está acontecendo antes: a disputa por legitimidade, por atenção qualificada e por confiança. Em 2026, a campanha que souber unir preparação, responsabilidade digital e leitura social chegará mais forte ao período oficial.
A minha conclusão é simples: a eleição não começa quando a lei permite pedir voto. Ela começa quando o eleitor começa a formar juízo. E esse processo já está em andamento.
Gabriel Filipe
Cientista político e consultor em marketing político